O grupo alemão foi o escolhido para adquirir a participação minoritária na TAP, levando a melhor sobre a Air France-KLM. Proposta tem implícita uma avaliação da companhia de 2.407 milhões.
O Conselho de Ministros aprovou esta quarta-feira a privatização de 49,9% da TAP à Lufthansa, que se tornará o parceiro industrial da companhia portuguesa. O grupo alemão, que esteve perto de adquirir a TAP antes da pandemia, levou a melhor sobre a Air France-KLM com uma oferta financeira de 1.201 milhões e a promessa de elevar para 130 o número de aviões da transportadora aérea nacional.
O grupo alemão ofereceu 1.025 milhões por 44,9% da TAP, a que acrescerão 118 milhões de euros referentes à oferta de 5% aos trabalhadores, que será feita ao mesmo preço. Caso não seja totalmente subscrita os títulos serão adquiridos pela Lufthansa. Acrescem ainda 58 milhões relativos ao valor a pagar pela venda da Cateringpor e da SPdH e um mecanismo de ajuste à evolução dos resultados da empresa.
Todo somado dá os 1.201 milhões de euros, o que corresponde a uma avaliação de 2.407 milhões de euros para a totalidade da TAP. O Governo afirma que a proposta tem implícito um múltiplo de 6,4 vezes o EBITDA da TAP, 80% acima da recente aquisição da Easyjet pela Apollo.
A proposta financeira da Air France-KLM soma 1.038 milhões, menos 13,6% do que a da Lufthansa. O grupo franco-neerlandês oferecia ainda a possibilidade de pagar mais 100 milhões de euros, caso a TAP atingisse objetivos de EBITDA e dívida financeira até 2028. A incerteza sobre esta fatia pesou na decisão do Governo de escolher o grupo alemão.
A proposta da Lufthansa superiorizou-se ainda no investimento a realizar, propondo aumentar a frota da TAP dos atuais 101 aviões para 117 em 2035 e para 130 após esse ano com a abertura do novo aeroporto de Lisboa, num total que pode chegar aos 4.000 milhões de euros. Dentro destes números está a transferência de até oito A350-900 após 2030. O grupo alemão compromete-se ainda a investir na criação de uma escola de aviação militar e civil na Base de Tancos, com a criação de 200 pontos de trabalho e um investimento de centenas de milhões de euros na renovação da infraestrutura. As duas propostas asseguravam a manutenção dos postos de trabalho e o respeito pelos contratos coletivos em vigor.
Acolhendo o desafio lançado pelo caderno de encargos, a Lufthansa avançou com uma proposta para uma segunda fase de privatização, para 100% do capital. O grupo propõe pagar 863 milhões pelos restantes 50,1% e oferece uma participação de 5% no grupo Lufthansa, avaliada em 488 milhões de euros. Juntando as duas fases, a valorização total da companhia pela Lufthansa chega aos 2.552 milhões de euros.
A TAP será a sexta companhia de rede do grupo, a par da própria Lufthansa, da Swiss, da Brussels Airlines, da Austrian Airlines e da ITA Airways (detida em 41% e com um acordo para chegar aos 90%). Tem ainda a Eurowings, a companhia lowcost, e transportadoras regionais.
A entrada da Lufthansa no capital permitirá à TAP beneficiar da escala do maior grupo de aviação europeu, que transportou 135 milhões de passageiros em 2025, oito vezes mais que os 16,7 milhões transportados pela TAP, e teve receitas de 39,6 mil milhões de euros. Com uma frota de 737 aviões, serve cerca de 330 destinos em cerca de 100 países.
A companhia portuguesa acrescenta uma frota de 101 aeronaves e uma rede de mais de 90 destinos onde o principal atrativo são as ligações ao Brasil, onde é líder na Europa. A Lufthansa passará de uma quota de 9% para 20% na América Latina.
“A nossa proposta reflete a nossa convicção de que, com base no nosso historial comprovado de desenvolvimento bem-sucedido de companhias aéreas de rede, o Grupo Lufthansa é o melhor parceiro para apoiar o crescimento futuro da TAP, reforçar a sua competitividade e continuar a desenvolver o seu papel enquanto companhia aérea de bandeira de Portugal“, referiu a empresa alemã em comunicado aquando da entrega da proposta financeira melhorada, no final de setembro.
No final de julho, o CEO da Lufthansa salientou a intenção de “reforçar a companhia aérea nacional portuguesa como parte do Grupo Lufthansa e como a principal companhia aérea para o Atlântico Sul, tendo Lisboa como hub estratégico”. Um estatuto que a ITA Airways também procura.
Com a vitória do grupo alemão, a TAP vai manter-se na Star Alliance. Tal como aconteceu com a ITA, a Lufthansa irá pedir a integração da companhia portuguesa na parceria transatlântica com a United Airlines. A empresa americana enviou uma carta ao Governo português a dar conta do interesse em acolher a TAP.
O grupo Lufthansa já oferece 353 voos semanais de e para Portugal e emprega no país mais de 500 trabalhadores, com destaque para o centro de serviços partilhados (Lufthansa Ground Services Portugal) no Porto. Está ainda a construir uma unidade da Lufthansa Technik para a reparação de componentes em motores de avião, em Santa Maria da Feira, que segundo a empresa irá elevar o número de postos de trabalho para mais de mil em 2030.
Segundo foi comunicado no Conselho de Ministros realizado no início do mês, o concorrente selecionado poderá ser convidado para uma negociação “finalíssima”. Cumprida essa etapa, seguem-se uma série de formalidades contratuais.
O Conselho de Ministros tem de aprovar os instrumentos contratuais, preparados pela Parpública, que incluem, designadamente, o contrato de compra e venda das ações, o acordo parassocial com os poderes de gestão) e outros contratos necessários à operação.
As minutas são enviadas ao investidor, que tem cinco dias para reclamar, se necessário. Existindo acordo, os contratos serão assinados até ao final do ano.
O grupo vencedor terá ainda de obter as autorizações regulatórias necessárias, junto da ANAC, da Autoridade da Concorrência e nos países onde as duas companhias operam. A mais decisiva e demorada será a da Comissão Europeia.
O Ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, afirmou na apresentação do Orçamento do Estado para 2027 que o processo só deverá estar encerrado em 2028.
“O Governo este mês tomará decisão sobre quem venceu e depois inicia-se o processo junto da Direção-Geral da Concorrência da Comissão Europeia, que poderá demorar 18 a 24 meses”, contabilizou o governante, acrescentando que o fecho da operação “será já em 2028 e o impacto na dívida será só em 2028”.
Só nessa altura a aquisição pela Lufthansa poderá ser consumada e poderá avançar a oferta de subscrição de 5% do capital para os trabalhadores.
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